ROMA X VASSULA - FATOS E COMENTÁRIOS À LUZ DO DIREITO CANÔNICO, DO MAGISTÉRIO E DA TEOLOGIA

ROMA X VASSULA

FATOS E COMENTÁRIOS À LUZ DO DIREITO CANÔNICO, DO MAGISTÉRIO E DA TEOLOGIA
José Hipólito de Moura Faria


áudio: ROMA X VASSULA - fatos e comentários... - clique para ouvir


Introdução factual

Tão logo começaram a ser divulgadas as mensagens da Verdadeira Vida em Deus, que V. Rydén receberia do Senhor como "um maná especial para o nosso tempo", no qual a caridade de muitos se esfriou, elas atraíram a atenção de meios católicos. Entre estes, não foram poucos os bispos, sacerdotes e teólogos de renome que acolheram com entusiasmo essas mensagens. Mas não faltaram também críticos e opositores encarniçados. Estabeleceu-se uma polêmica. As críticas levantadas por teólogos como o Pe. Pacwa, SJ, ou o Pe. François Dermine, tiveram pronta resposta de outros teólogos: Pe. Michael O'Carroll e René Laurentin (ambos da Pontifícia Academia Mariana), Edward O'Connors (professor da Notre Dame University), James Fannan (professor de Teologia e primeiro orientador espiritual de Vassula), e muitos outros.

Introdução profética

A Verdadeira Vida em Deus é um curso de vida espiritual, mas é também uma obra profética (com muitas profecias já cumpridas). Jesus, tão logo pediu a Vassula que divulgasse suas mensagens, também a foi preparando para a perseguição: "Vassula, prepara-te para os meus tormentos [ ... ] Sentirás as minhas penas, Eu te preparo para a minha Crucifixão ... " (4/4/1987). "Como caçadores na pista da sua presa. Dar-te-ão caça e pegarão em armas para te perseguir; porão a tua cabeça a prêmio para te destruir" (23.04.1987). "Não disse Eu que os 'sábios' não compreenderão aquilo que vem do Espírito? É uma das principais razões pelas quais todos aqueles que estão no poder e se consideram sábios te ridicularizarão, te desprezarão, te desencorajarão, te esquadrinharão. Fica, pois, preparada, muito amada, para os lobos que te perseguirão. Não temas, Eu estarei junto de ti." (5.8.87). "Minha filha, prepara as costas para a flagelação. Eu, o Senhor, permiti que Me flagelassem; por conseguinte, também tu, oferece a eles as tuas costas. Deixa que repitam seus erros ... Hoje é como ontem: quem quer que Eu mesmo lhes envie, examinam-no minuciosamente, perseguem-no e rejeitam-no" (5.9.88). "As autoridades da Igreja te rejeitarão" (4.5.88). "A tua ímpia geração, que tanto Sangue Me fez derramar, rejeitar-te-á desdenhosamente; mas, minha Vassula, Eu te manterei, apesar das Impressionantes feridas que irás receber desta geração tão malvada." (14.10.91). Sim, Minha Vassula, tu parecerás derrotada, mas não terei também Eu dado a impressão de um derrotado? [...] Apareci aos olhos do mundo como o maior de todos os derrotados ... Sê firme, Minha Vassula, sê firme como uma rocha ... " (18.1.91).

E exatamente um mês antes da notificação, ou seja, no dia 6 de setembro de 1995, o Pai Eterno a prepara: "O mundo escarrará em ti, mas não mais do que escarraram no Meu Filho. Os traidores cruzarão o teu caminho, mas nenhum deles é maior que Judas. Seguir-te-ão também renegações e rejeições; entretanto, nenhuma delas mais severa que as rejeições e renegações que Meu Filho recebeu. Sem piedade, serás incompreendida por muitos; mas, alegra-te! Não caias no desânimo. Não oponhas resistência, nem tampouco te desvies. Permite que sejas punida, como o Meu próprio Filho, teu Redentor, foi punido, escandalizando todos os seus discípulos. Ordeno-te que fiques insensível aos insultos dos homens e que não respondas, tal como Meu Filho não respondeu, mas ficou silencioso, e, por esses sofrimentos, Eu estabelecerei a Paz. Farei que os teus opressores te oprimam e, quando te vir caída por terra, nos tormentos, espezinhada pelos homens, farei luz na Igreja, dando início a uma renovação no Meu Espírito três vezes Santo, fazendo-a capitular, a fim de que ela seja uma" (voI. 8º, pág. 80).

É importante assinalar que, nessas mensagens, após o anúncio da perseguição seguia-se habitualmente o pedido para que ela perdoasse aos perseguidores e rezasse por eles.


10/10/1995 Pe. Michael O'Carrol, então orientador espiritual de Vassula, escreve aos membros da Associação Verdadeira Vida em Deus dizendo-lhes que estivera com o Papa João Paulo II e lhe falara dela. O Papa, pessoalmente, além de mandar uma bênção para Vassula, sugeriu que ele procurasse o Cardeal Ratzinger levando-lhe um dossiê com os fatos que acompanhavam as card ratzingermensagens: conversões, curas espirituais, reafervoramentos, sinais e milagres, etc. Pe. Michael pede, portanto, a coleta dos testemunhos e documentos para compor o referido dossiê.

23/24 de outubro de 1995 - Enquanto se preparava o dossiê, sai publicada inesperadamente, no Osservatore Romano, uma notificação, sem assinatura, datada de 6/10/95, alertando os bispos para a existência de erros nas mensagens divulgadas por Vassula, censurando alguns aspectos de suas atividades, apesar de reconhecer o lado positivo delas. O preâmbulo da notificação afirma ter sido feito um "exame atento e sereno de toda a questão". Eis os "erros" que ela censura: a) "fala-se com uma linguagem ambígua das Pessoas da Ssma. Trindade, chegando até a confundir os nomes específicos e as funções (sic!) das Pessoas Divinas; b) o anúncio de "um iminente período de predomínio do Anticristo no seio da Igreja"; c) a profecia, em chave milenarista, de uma intervenção resolutiva e gloriosa de Deus para instaurar sobre a terra, antes ainda da vinda definitiva de Cristo, uma era de paz e de bem-estar universal." d) Anuncia-se, além disso, o futuro próximo de uma Igreja que seria uma espécie de comunidade pancristã, em contraste com a doutrina católica". A seguir, Vassula é censurada por receber habitualmente os sacramentos na Igreja Católica, embora seja greco-ortodoxa, e por suas atividades ecumênicas, que "irritam não poucas autoridades e fiéis da sua própria Igreja" e parecem colocá-Ia "acima de qualquer jurisdição eclesiástica e de todas as regras canônicas".vassula&cdratzinger

Comentários - Uma observação preliminar: a notificação saiu por ocasião da 'troca de guarda" na CDF: saía Dom Bovone, pessoalmente hostil às mensagens, o qual deixara a minuta do documento sobre a mesa. Ao assumir o posto de Secretário, Dom Tarcísio Bertone, pensando dar continuidade administrativa aos trabalhos, mandou-a à publicação, sem se comprometer pessoalmente com o caso, tanto que ela foi para o jornal sem as assinaturas dos titulares. Essa circunstância explicaria as imprecisões, ambiguidades e mesmo erros da notificação: ela não teria recebido os "retoques finais" nem percorrido todos os trâmites legais.

Do ponto de vista formal e processual, essa notificação incorreu em graves falhas: a) Não atendeu aos acordos de Balamand, entre as Igrejas Católica e Ortodoxa. b) Tendo em vista as próprias normas canônicas católicas, incorreu numa ilicitude, uma vez que não obedeceu ao prescrito no Cân. 221 ("Os fiéis têm o direito de ser julgados de acordo com as prescrições do direito, a ser aplicados com equidade") e, sobretudo, no cân. 50 ("Antes de baixar um decreto singular, a autoridade colha as necessárias informações e provas e, na medida do possível, ouça aqueles cujos direitos possam ser lesados"). Ora, não houve processo canônico - Vassula soube da notificação pelos jornais. Seu orientador espiritual, o Pe. Dr. Michael O'Carrol não foi ouvido, nem os demais teólogos que a defendiam. Além do mais, a notificação apresenta alguns aspectos nitidamente difamatórios, que poderiam ter sido evitados com o cumprimento do cân. 50, pois as informações estavam bem à mão. (Por essa difamação, Vassula poderia ter exigido uma indenização milionária, como foi aventado por alguns advogados. Mas ela de forma alguma admitiu processar a Igreja, preferindo guardar o silêncio que Jesus lhe recomendou). Lembramos apenas que até o livro dos Atos menciona que nem os romanos antigos condenavam alguém sem primeiro lhe dar a chance de defesa e de confrontar seus acusadores. (At 25,16) E estávamos no séc. XX...

Do ponto de vista do conteúdo, vemos, com surpresa, que os autores da notificação assumiram, por sua conta e risco, as objeções dos detratores das mensagens, que já tinham tido resposta! Essa resposta, estranhamente, foi ignorada.

Os "erros" atribuídos às mensagens constam de "resumos" redigidos pela própria notificação e não trazem textos comprobatórios, nem num desejável apêndice, e podem ser contestados um a um - foi o que fiz, num grosso volume intitulado "Entre a Misericórdia e a Justiça" (853 páginas), com a maciça citação de textos da "Verdadeira Vida em Deus". Por exemplo, no que se refere à Ssma. Trindade, a alegada confusão de “nomes" das Pessoas Divinas parece ter como único fundamento uma passagem em que Vassula, ao sentir Jesus muito paternal em seu amor e suas orientações, chamou-O de "Pai" e afirma que Ele ficou muito feliz com isso. Por aí se vê que a notificação "esqueceu-se" de censurar também o Profeta Isaías, que anunciou Jesus como o "Pai para sempre" (9,6), ou o Evangelho de S. João, no qual Jesus chama seus discípulos de "filhinhos" (13,33), e no qual afirma: "Eu e o Pai somos um" e "Quem Me vê, vê o Pai." (14,19). Portanto, se Jesus é a imagem perfeita do Pai, deve de alguma forma ser também imagem de sua mesma Paternidade I (Falha hermenêutica mais grave foi ignorar o gênero coloquial e amoroso do episódio).

Na impossibilidade de fazer aqui a demonstração completa, item por item, da inconsistência desses supostos "erros" atribuídos às mensagens, permito-me citar as páginas do meu livro em que essas censuras são analisadas: a) teologia trinitária: págs. 169 a 263; b) a questão do Anticristo: págs. 579 a 675; c) sobre o milenarismo: págs. 769 a 799; ecumenismo: págs 531 a 579. (Mas, melhor ainda seria ler as respostas da própria Vassula à CDF, no diálogo que, finalmente, manteve com ela).

No entanto, e a título de exemplo, para que os leitores percebam até onde pode ir à inconsistência dessas censuras, consideremos uma das afirmativas da notificação: a de que Vassula anuncia o advento, "em futuro próximo, de uma Igreja que seria uma espécie de comunidade pancristã, em contraste com a doutrina católica". Quem lê uma frase assim deve imaginar que as mensagens preguem algum tipo de ecumenismo indistinto, irênico e sincretista, passando por cima das reivindicações doutrinárias católicas. Citemos então alguns textos (e são muito mais numerosos) da VVD:

"Regressai todos a Pedro (o Papa), porque fui Eu que o escolhi" (voI.2, pág.229);

"Honrai a Minha Mãe como Eu, que sou o Verbo e estou acima de tudo, a honro.[...] Boa parte dos meus discípulos isolaram-se completamente sob o nome de Lutero. Eles devem regressar a Pedro." [...] Vassula, Eu próprio os porei de joelhos, a fim de que venerem a Minha Mãe"[...] Esperei anos para que eles mudassem." (voI. 2, pág.223).

Eu, o Senhor, não quero divisão alguma na Minha Igreja. Por meu amor vos unireis, e sob o Meu Nome, vós Me amareis. Segui-Me e sede Minhas testemunhas. Amar-vos-eis uns aos outros como Eu vos amo. Unir-vos-eis e sereis um só rebanho sob um só pastor. Como todos vós sabeis, escolhi Pedro, dando-lhe autoridade. Como todos vós sabeis, Eu Mesmo lhe dei as chaves do Reino dos Céus. Pedi a Pedro que alimentasse os Meus cordeiros e as Minhas ovelhas e que cuidasse deles. Essa autoridade foi dada por Mim. Não desejei que mudásseis a Minha Vontade." (2º vol., pág.154).

"Meus bem-amados ... rezai para que o Meu Rebanho seja um só, como o Pai e Eu somos Um e o Mesmo. Rezai, a fim de que os Meus cordeiros regressem a um só Redil, sob a orientação de Pedro, até ao Meu Regresso." (3º vol., pág. 34).

"Rezai pelas ovelhas que não estão sob a direção de Pedro, a fim de que regressem a Pedro e se reconciliem; rezai, a fim de que haja um só Rebanho e um só Pastor. [ ... ] Rezai, a fim de que Me possais louvar à volta de um só Sacrário Santo. Uni-vos, meus bem-amados, e sede todos um só, como Meu Pai e Eu somos Um e o Mesmo. Abençôo-vos a todos, do fundo do Meu Coração" (2º voI. pág. 370).

"Pedro do Meu Coração, Pedro dos Meus cordeiros - pois é o nome santo que lhe dei: Pedro dos Meus cordeiros - mas os Cains o destronaram, roubando-lhe a Coroa, com a qual Eu Mesmo o havia honrado. Eu, o Senhor, amo-o, porque este é o bem-amado de Minha Alma. Eu próprio lhe restituirei essa coroa roubada. Eu arruinarei esses falsos reinos que têm perturbado o Meu Corpo (as seitas), reinos flutuantes, sem raízes. Destruirei esses falsos reinos e erguerei Meu verdadeiro Reino como uma Chama na Minha Luz. Devolverei inteiramente a sede a Pedro, colocá-lo-ei sobre o trono e porei nas suas mãos um cetro de ferro, com o qual lhe darei o poder de reinar como pastor. Reunirei os Meus cordeiros dispersos. E quando tiver feito isto, rodearei o Meu Redil com os Meus Braços, e ninguém, ninguém mesmo, nem o próprio Maligno, poderá fazer sair um só cordeiro deste Redil." (vol.2º, pág, 202).

"Será por vossa conversão, que o vosso coração Me ouvirá e levará a Minha Igreja a ser uma, unindo o Meu Corpo." Será pelo esplendor da Verdade que espargireis de novo o perfume e fareis que cada um se reconheça como parte de um só corpo" (vol 8º, pág 48s).

"Ó Pedro' Vem, pega na Minha Mão, e Eu próprio te guiarei. Ouve o Meu Grito, reúne os teus irmãos do Oriente na Minha Fundação. Conduze-os a Mim! Ó, quanto desejo esta unidade!" (vol. 2º, pág. 182).

Basta! Dos poucos exemplos citados podemos concluir que a união dos cristãos, cumprindo o desejo de Jesus na Última Ceia (haverá um só Rebanho e um só Pastor...) dar-se-á: a) sob a direção de Pedro (o Papa) e, portanto, sob o seu magistério; b) no fundamento da Verdade; c) pela conversão e regresso de protestantes e orientais a Pedro; d) em torno da Eucaristia retamente compreendida (um só Sacrário Santo...); e) em torno do culto a Maria; f) pela extirpação das seitas que atualmente nos dividem.

Diante disso, desafio a quem quer que seja a provar que esses ensinamentos pregam "uma comunidade pancristã contrária `a doutrina católica! ”

Concluindo esta parte...

Por essas amostras, os leitores poderão verificar, pessoalmente, as coisas muito estranhas que têm acontecido com relação a Vassula. Mas não queria concluir sem citar uma lei constante, desde que algumas autoridades têm tentado condenar as Mensagens: a ironia divina permite que, em cada documento apareçam erros e verdadeiras trapalhadas, como a demonstrar a inanidade de nos rebelarmos contra o Seu Espírito Santo. Já mostramos isso analisando a carta do Cardeal Levada. (Boletim VVD, nº 33).

No que diz respeito à notificação de outubro de 1995, ela acusa Vassula de se colocar acima de todas as normas canônicas. E quem é mesmo que desrespeitou todas as normas canônicas na censura pública e na execração a que expôs a mensageira do Senhor, sem o devido processo?... Quem se colocou, ainda, acima das normas canônicas (Cân. 844·3º) ao censurá-Ia por receber eventualmente (e não "habitualmente", como afirmava a notificação) os sacramentos católicos? (Sem falar que também se colocou acima de outras diretrizes de nível hierárquico superior a uma "notificação”: Vat. II (UR nº 15; Decreto Orientalium Ecclesiarum. nº 26); encíclica Ut Unum Sint, nºs 46, 58, etc.). Mais grave ainda: tentando filtrar mosquitos para encontrar supostos erros quanto à teologia trinitária nas mensagens, os autores da notificação querem fazer-nos engolir seu próprio e vistoso "camelo", pois falam de "funções" das Pessoas Divinas... (Na teologia trinitária tratamos de "processões", de "relações'·, "atribuições" e "missões", etc. Mas o conceito de "função" não se aplica às Pessoas Divinas...). E isto, num documento da Congregação para a Doutrina da Fé ... Outra trapalhada exemplar: à procura de motivos de censura, a notificação estranha a atividade ecumênica de Vassula por "irritar" o clero e os fiéis da Igreja Ortodoxa... Vejamos o surrealismo: a notificação "toma as dores" dos Ortodoxos que se irritam com Vassula porque ela... prega o retorno a "Pedro" - o que eles não querem nem ouvir! E a censura retorna, então, em bumerangue: será que a CDF deseja, com isso, uma comunidade pancristã, contrária à doutrina católica?! ... (No caso: sem a obrigação de retorno a "Pedro").


30/10/1995 – A dor do Papa – A revista espanhola Maria Mensageira informa: “A notificação contra Vassula Rydén causou uma grande tristeza e dor ao Santo Padre João Paulo II. Ele mesmo informou isto a um sacerdote italiano, na manhã do dia 30 de outubro p.p., poucos dias depois de ter sido ela publicada.” (Apud Atualizando Medjugorje, nº 96, março de 1996).vasspope

10/05/1996 – Palavras do Cardeal Ratzinger em Guadalajara, México. Ao receber um grupo de leitores das mensagens de Verdadeira Vida em Deus, que lhe narraram o bem que lhes causaram esses textos, e que pediam uma diretriz, tendo em vista a notificação, o Cardeal lhes declarou: “Podeis continuar a promover os escritos de Vassula, sempre com discernimento. ‘Não extingais o Espírito, não desprezeis as profecias. Examinai tudo e ficai com o que é bom’” (1 Tes 5, 19-21).

Comentário – A notificação pedia que não se desse espaço à divulgação das mensagens. Agora, o Cardeal autoriza essa divulgação e ainda coloca a VVD na categoria de profecias, citando o texto de S. Paulo.

16/08/96 - João Paulo II abençoa os grupos espirituais da "Verdadeira Vida em Deus" – O Osservatore Romano dessa data (edição espanhola), publica uma bênção do Papa ao receber grupos teresianos e grupos da Verdadeira Vida em Deus da Espanha: "Cordialmente, saúdo as pessoas de idioma espanhol aqui presentes, especialmente [...] os grupos espirituais da "Verdadeira Vida em Deus". [...] Que a sua generosa resposta a Deus possa ser o testemunho do amor de Deus no mundo. Concedo-lhes com afeição a Bênção Apostólica".Jean Paul II

Comentário: Uma pergunta: o Papa iria abençoar uma associação que difundisse erros? (Aliás, com eterna gratidão os leitores das mensagens registram que todas as manifestações pessoais de João Paulo II foram no mínimo amistosas - quando não de discreto estímulo – a Vassula e seus escritos. Foi o que ele pôde fazer, diplomaticamente, para também não desautorizar seus colaboradores. Algo semelhante registramos com as manifestações do Cardeal Ratzinger (Bento XVI) sempre que abordou o caso a título pessoal - pois ele, igualmente, diante do fato consumado da publicação da notificação, não podia desmoralizar seus auxiliares...).

29/11/1996 - Contra-ataque da CDF - Como as declarações anteriores do Cardeal Ratzinger pareciam limitar muito o alcance da notificação, a Congregação publicou um Comunicado sobre revelações privadas, afirmando que a notificação estava em pleno vigor e seria posteriormente publicada nas atas oficiais da Sé Apostólica, já agora com as assinaturas do Prefeito e do Secretário da Congregação (o que ocorreu em 5/12/1996 - mais de um ano após a publicação "anônima").

Comentário - Mas o comunicado não desmentiu as declarações de Guadalajara... Pretendeu apenas apresentar algumas "precisões" para dissipar mal-entendidos.

14/02/1998 - João Paulo II manda uma bênção para Vassula - Ao receber das mãosniels chr hvidt icone do teólogo dinamarquês Niels Christian Hvidt o 11º volume da VVD em francês, com uma dedicatória de Vassula, o Papa exclamou: "Ah, Vassula!" E acrescentou: "Que Deus a abençoe"! em alemão (Gott segne sie).

Janeiro de 1999 – Palavras esclarecedoras do Cardeal Ratzinger - A revista 30 Dias de janeiro de 1999 publica uma esclarecedora entrevista do Cardeal Ratzinger, concedida a Niels Christian Hvidt, sobre a profecia na Igreja. Quando o entrevistador mencionou o caso Vassula, dizendo que alguns comentaristas interpretaram a notificação de 1995 como uma "condenação", o Cardeal contesta:

"Não, a notificação é uma advertência, não uma condenação. Do ponto de vista processual ninguém pode ser condenado sem ter sido ouvido e sem que, primeiro, se tenha organizado um processo. O que se diz no referido documento é que muitas coisas não estão claras. Existem elementos apocalípticos discutíveis e aspectos eclesiológicos não esclarecidos. “

Hvidl: Então está sendo organizado um processo para esclarecer a questão?

Ratzinger: Sim, e enquanto durar esse processo de clarificação os fiéis devem ser prudentes e manter vivo o espírito de discernimento". (Cito apenas os textos mais expressivos).

Comentário - Valiosíssima entrevista. O Prefeito da CDF dá uma interpretação autorizada: a notificação não foi uma "condenação" de Vassula, mas uma advertência prudencial, até que as coisas ficassem melhor esclarecidas. Além disso, ele deu razão aos críticos da notificação, que mencionavam a falta de um processo canônico que a embasasse. Ao mesmo tempo, desautorizou o preâmbulo daquele documento, que falava em "exame atento e sereno de toda a questão". Tão "sereno" que só ouviu um dos lados, e tão "total" que dispensou os procedimentos canônicos habituais ... O que espanta é que esse processo só teve início cinco anos depois de as "advertências" terem sido lançadas aos quatro ventos... Destaque-se, ainda, que o Cardeal já não fala em "erros" dos escritos, mas apenas em elementos discutíveis ou não totalmente claros...

Outra observação importantíssima é a de que os fiéis devem manter vivo o espírito de discernimento enquanto durar esse processo de clarificação. Ora, alguns anos depois o mesmo Cardeal irá escrever que Vassula prestou "úteis esclarecimentos" sobre as dúvidas que haviam sido levantadas na notificação...


04/04/2002 - A Congregação para a Doutrina da Fé escreve a Vassula - Finalmente, a CDF atendeu ao pedido da própria Vassula, em carta de 6/7/2000, e, nove meses depois, dirige-se a ela, em carta assinada pelo Pe. Prospero Grech, OSA, Conselheiro da Congregação e encarregado dos contactos com a Sra. Rydén. Lembra que ela é ortodoxa, mas que muitos católicos são seguidores da VVD e, portanto, "têm o direito de saber onde se situam quanto às questões de prosperogrechdoutrina e de prática abordadas em seus escritos". Depois, prossegue, num texto francamente elogioso: "Temos também consciência de suas obras de caridade, de seus esforços para levar todos os cristãos à união com o Bispo de Roma, de sua grande devoção à Santa Virgem Maria, de sua apresentação de Deus como um Deus de Amor, mesmo aos não-cristãos, e de sua oposição ao racionalismo e à corrupção entre os cristãos." A seguir, a carta apresenta a ela cinco questões sobre os assuntos abordados na notificação: qual o 'status' da 'revelação' que Vassula diz receber; como ela vê o futuro da união cristã e por que frequenta os sacramentos na Igreja Católica; explicações sobre a terminologia relativa às pessoas da Ssma. Trindade; o lugar do 'Novo Pentecostes' na história da salvação, em relação com a parusia e a ressurreição dos mortos."

Comentário - Os "aspectos positivos" dos escritos e das atividades de Vassula são agora francamente reconhecidos e citados. Digno de nota é que o Pe. Próspero Grech escreve. a certa altura da carta: "por isso mesmo (isto é, por exortar os ortodoxos a reconhecerem o Papa) infelizmente não é acolhida em certos países de sua própria confissão." Lembram-se? A notificação censurava Vassula por 'irritar' os membros da sua própria Igreja. Aqui, ao contrário, escrevendo em nome da CDF, o Pe. Grech lamenta que esses ortodoxos não acolham as exortações da Sra. Rydén... Censurava também as atividades ecumênicas de Vassula: agora, a Congregação as reconhece e elogia ("seus esforços para levar todos os cristãos à união com o Bispo de Roma").


26/06/2002 - Vassula, depois de muitas reuniões com a CDF, formaliza suas respostas – Em extensa carta, ela esclarece as questões levantadas e se dispõe, ainda, a continuar o diálogo, caso venham a surgir novas dúvidas.

30/03/2003 - Vassula escreve aos membros da Associação Verdadeira Vida em Deus comunicando-lhes que a sua carta, agradou à CDF., depois de devidamente analisada. E que, por isso, o Cardeal Ratzinger solicita que ela seja publicada nos volumes da VVD. "Espero que a publicação deste documento sirva ao diálogo da verdade e do amor", concluiu ela.

10/07/2004 - Carta do Cardeal Ratzinger a alguns Presidentes de Conferências Episcopais - (com cópia para Vassula e autorização para publicação). Nesta correspondência, S. Emª afirma que, posteriormente à notificação, "houve um minucioso diálogo, ao fim do qual a referida Vassula Rydén em carta posteriormente publicada no último volume de True Life in God, forneceu úteis esclarecimentos a respeito de sua situação conjugal, bem como sobre algumas dificuldades que, na citada notificação, haviam sido levantadas em relação aos seus escritos e à sua participação nos sacramentos." A seguir, no que diz respeito à participação dos fiéis católicos "nos grupos de oração de caráter ecumênico organizados pela Sra. Rydén," eles são convidados a "seguir as disposições dos Bispos diocesanos."

Comentário - O que essa carta nos diz é que todas as dúvidas e ou restrições levantadas na notificação, sobre doutrina, atividades e comportamento da mensageira foram esclarecidas. O Cardeal não menciona nenhuma questão pendente de clarificação. Inclusive os fiéis podem participar dos grupos ecumênicos, se não houver oposição dos Bispos locais. A grande lacuna posterior é que não se tomou a medida sequencial e lógica: a revogação pura e simples da notificação (pois, se ela se baseava em pontos duvidosos e pouco claros das mensagens, e esses pontos foram satisfatoriamente esclarecidos, é inadmissível a um raciocínio coerente e honesto que ela se mantenha em vigor! Dizer que ela não foi revogada por causa da parte que considerava as mensagens como "meditações pessoais" é fazer pouco caso da inteligência dos fiéis que conhecem a doutrina da Igreja sobre "revelações particulares": elas não exigem "fé divina" e, portanto, não são objeto de fé obrigatória. Cada um é livre de acreditar ou não). Aliás, hoje sabemos que o Cardeal Ratzinger pensou em revogar a notificação, mas encontrou resistência das "forças ocultas" e preferiu, diplomaticamente, não enfrentá-Ias. Por isso, adotou o caminho algo sinuoso da carta e sua divulgação, que, para os bons entendedores, equivaleria a uma revogação.


25/01/2007 - Carta pessoal do Cardeal William Levada, novo Prefeito da CDF - Nesta carta que pretende dar orientação adicional aos Bispos, em virtude de dúvidas remanescentes, o Cardeal afirma que a notificação conserva seu valor como Julgamento doutrinal, lembra que Vassula manteve um diálogo com a CDF, esclarecendo alguns aspectos que tinham sido levantados na notificação e que, portanto, pode ser permitida a divulgação das mensagens desde que prudencialmente, os Bispos se assegurem de que esses esclarecimentos de Vassula sejam conhecidos. Termina dizendo, sem justificar a razão, que continua inoportuna a participação dos católicos nos grupos de oração ecumênicos organizados por Vassula.

Comentário: Já analisamos essa nova carta no Boletim de setembro/ 2007, onde mostramos seu lado positivo e também suas inconsistências, erros factuais e até uma afirmativa falsa que ela, lamentavelmente, contém. Só não analisamos ainda a razão de o Cardeal julgar inoportuna a participação dos fiéis nos grupos de oração ecumênicos da VVD. (o que não atinge nossos grupos comuns, de católicos, da VVD). Ele afirma que, quanto a isso, os fiéis devem ater-se às diretrizes do Diretório Ecumênico e do Direito Canônico (do qual cita, especificamente, os cânones 215, 223 § 2' e 383, § 3'). Demos graças a Deus! Depois de a CDF passar "por cima das normas canônicas" ao publicar a notificação, o Cardeal finalmente se lembra de que temos um Direito Canônico! Vamos, então, conferir as citações que ele faz:

Cân. 215: (garante o direito de livre associação e de reunião!). "Os fiéis têm o direito de fundar e dirigir livremente associações para fins de caridade e piedade, ou para favorecer a vocação cristã no mundo, e de se reunir para a consecução comum dessas finalidades."

Cân. 223: § 2' "Compete à autoridade eclesiástica, em vista do bem comum, regular o exercício dos direitos que são próprios dos fiéis". Comenta o canonista, Pe. Jesus Hortal, SJ: essa faculdade de regulamentar não é arbitrária. Além disso, a mesma autoridade não pode suprimir, mas apenas regulamentar o uso dos direitos dos fiéis (grifo meu).

Cân. 383 § 3': "Proceda (o Bispo diocesano) com humanidade e caridade em relação aos que não estão em plena comunhão com a Igreja católica, incentivando também o ecumenismo, como é entendido pela Igreja."

Pergunto: é preciso grande inteligência para perceber que tais cânones, na realidade, e ao contrário da restrição pretendida na carta do Cardeal, dão cobertura aos fiéis que se associam para rezar ecumenicamente pela união dos cristãos?

Outras perguntas que ficam no ar:

a) Se nossos bispos promovem reuniões de oração e de culto com pastores e membros de outras denominações cristãs, todos os anos, para orar pela unidade, não podemos imitá-los? Será que eles estão dando mau exemplo?

b) Os Bispos não deveriam cumprir o cân. 755: "Compete, em primeiro lugar, a todo o Colégio dos Bispos e à Sé apostólica incentivar e dirigir entre os católicos o movimento ecumênico, cuja finalidade é favorecer o restabelecimento da unidade entre todos os cristãos, a cuja promoção a Igreja está obrigada, por vontade de Cristo"? E como fica a orientação da encíclica Ut Unum Sint, de João Paulo II: "Esta conversão e esta santidade de vida, juntamente com as orações particulares e públicas pela unidade dos cristãos devem ser tidas como a alma de todo o movimento ecumênico" (nº 21)? E ainda: "Quando os irmãos que não estão em perfeita comunhão entre si, reúnem-se em comum para rezar. esta sua oração é definida pelo Concílio Vaticano II como a alma de todo o movimento ecumênico, Essa oração comum é 'um meio eficaz para impetrar a unidade', 'uma genuína manifestação dos vínculos pelos quais ainda estão unidos os católicos com os irmãos separados'. (Nº 21 - cf. também os n's 22 a 28 da mesma Encíclica).

Concluindo: havendo óbvio conflito de orientações, iremos obedecer aos ensinamentos do Concílio, do Direito Canônico, do Magistério Papal ou à carta de um Cardeal? Desde quando passou a ser inoportuno "reunirmo-nos para orar pela unidade dos cristãos?"

Maio de 2007 - Carta do Pe. Prospero Grech, OSA, a Vassula - Pe. Prospero, recordamos, foi o perito que contactou Vassula em nome da CDF. Consultado por ela, a respeito da nova manifestação por parte do Cardeal Levada, respondeu que, depois do diálogo havido, julgava que "o assunto estava encerrado e não viria mais à tona".

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Queremos encerrar essas considerações com palavras do Senhor nas mensagens:

"Não sejais como aqueles que parecem querer falar de união, mas empunham a espada contra os que a praticam" (vol. 4º, pág. 328). E ainda: "Vós falais de União e de Paz; mas, apesar disso, impedis aqueles que as põem em prática. Ora, Deus não pode ser enganado, e vossos argumentos não O convencem. O Reino de Deus não é feito apenas de palavras nos lábios" (vol. 4º, pág. 285).


Apêndice:

A CARTA DO CARDEAL LEVADA, DA CDF:

AUTORIZADA DIFUSÃO DAS MENSAGENS DA VVD

No dia 25 de janeiro de 2007, o Cardeal William Levada, atual Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, dirigiu uma carta aos Presidentes das Conferências Episcopais, para atender “aos pedidos de esclarecimentos sobre os escritos e atividades da Sra Vassula Rydén [...] que se referem, em particular, ao valor da Notificação de 6 de outubro de 1995 e aos critérios que as Igrejas locais devem levar em consideração para julgar se os escritos da Sra Vassula Rydén podem ser adequadamente difundidos” (grifo nosso)

Infelizmente, “sites” católicos divulgaram essa carta na Internet tirando-a totalmente do contexto, dando-lhe em consequência, uma interpretação esdrúxula, como se Vassula e as Mensagens estivessem sendo condenadas”!

Vamos, pois, situá-la no devido contexto:

1. Em 6 de outubro de 1995, a Congregação publicou uma "Notificação" a propósito dos escritos de Vassula e de suas atividades ecumênicas, apontando, genericamente (isto é, sem citar as passagens comprobatórias) possíveis erros doutrinários presentes nessas Mensagens, e convidando os Bispos a não darem espaço à sua divulgação. (Diga-se, de passagem, que fez isso à revelia das normas canônicas da própria Igreja, as quais exigiriam que Vassula fosse previamente ouvida, dando-se a ela a oportunidade de prestar seus esclarecimentos (cânones 50, 221...). Segundo os canonistas, essa falta de procedimentos, sem tirar a validade da Notificação, que provinha da autoridade competente, tornou-a pelo menos ilícita).

2. Interpretando o significado desse documento da CDF – uma advertência prudencial que muitos, “inimigos” das Mensagens ou desconhecedores de seu teor, interpretaram como uma "condenação" -, o Cardeal Ratzinger, então Prefeito da Congregação, de forma autorizada, numa entrevista concedida à revista internacional 30 Dias, em 16/3/98, publicada na edição de janeiro de 1999, em vários idiomas, esclareceu o significado e o alcance de tal “Notificação:

“A Notificação é apenas um aviso; não uma condenação. Sob o ponto de vista jurídico, ninguém pode ser condenado sem ter sido ouvido e sem que, primeiro, tenha sido organizado um processo sobre o assunto. O que diz o documento é que, nos escritos em questão, muitas coisas estão ainda por esclarecer. ”

Perguntado então se esse processo seria finalmente iniciado, o Cardeal Ratzinger respondeu:

“Sim. E enquanto esse processo estiver em curso, os fiéis se mantenham prudentes e vigilantes, num espírito de discernimento. ”

3. Mas foi Vassula, cansada de esperar, que solicitou pessoalmente à CDF que lhe fosse dada a oportunidade de esclarecer as dúvidas – o que foi aceito.

4. O resultado do “minucioso diálogo” que se seguiu (a expressão é do próprio Cardeal Ratzinger) foi que, em resposta aos quesitos que lhe foram apresentados pela CDF, Vassula escreveu uma longa carta, cujo teor agradou aos peritos da Congregação e ao seu Prefeito. Para encerrar o assunto, o Cardeal pediu que essa carta fosse publicada junto com os textos da VVD. E tendo consultado bispos e cardeais sobre a conveniência de revogar a Notificação, encontrou oposição por parte dos Presidentes de 5 Conferências Episcopais. A eles, escreveu o Cardeal Ratzinger, com cópia para Vassula e autorização para divulgação, uma carta informando que “a referida Vassula Rydén forneceu úteis esclarecimentos a respeito de sua situação conjugal, bom como sobre seus escritos e a sua participação nos sacramentos. Tendo em vista que no país de V.Exma./V.Exa. Revma. Houve uma certa difusão dos escritos em questão, este Dicastério considerou útil informar-lhe o exposto acima. Ao mesmo tempo, será necessário convidar os fiéis católicos, com relação à participação nos grupos de oração de caráter ecumênico organizados pela Sra Rydén, a seguir as disposições dos bispos diocesanos. ” (Cidade do Vaticano, 10/07/2004).

5. Esse último parágrafo significava, por conseguinte:

a) À luz das explicações de Vassula, a CDF não tinha mais objeções às mensagens (ou seja, elas poderiam ser lidas e difundidas entre os fiéis, juntamente com os esclarecimentos apresentados).

b) Com relação à participação dos católicos nos grupos ecumênicos organizados por Vassula (ou seja, aquelas reuniões internacionais e peregrinações que reúnem católicos ortodoxos, protestantes e até judeus, budistas e muçulmanos sensibilizados pelas Mensagens), a decisão de autorizá-la ou não ficava a critério dos bispos diocesanos.

6. Ora, parece que essa correspondência, tão clara, não eliminou todas as dúvidas, sobretudo porque não houve uma revogação explícita da Notificação (revogação que o Cardeal Ratzinger pensou em fazer – como o sabemos hoje de fonte segura – tendo desistido por causa de certas resistências de “bastidores”...) A carta do Cardeal Levada pretende, então apresentar orientações adicionais (e, convenhamos, fê-lo de forma tão confusa que acabou dando ocasião às mais diversas interpretações).

7. Voltemos então à carta do atual Prefeito da CDF (de 25 de janeiro de 2007), mas só recentemente divulgada). No que diz respeito aos “critérios que as Igrejas locais devem levar em consideração para saber se os escritos da Sra. V. Rydén podem ser adequadamente difundidos", tal carta é francamente positiva para nós, da VVD:

"Depois dos esclarecimentos mencionados acima (os prestados por Vassula à CDF), convém efetuar uma avaliação prudente, caso a caso, tendo em conta as possibilidades concretas que possam ter os fiéis de ler esses escritos à luz dos citados esclarecimentos." Ou seja: os bispos podem autorizar a difusão das Mensagens, assegurando-se, previamente, de que as respostas de Vassula às dúvidas apresentadas sejam simultaneamente conhecidas. Estamos, portanto, muito longe da Notificação que, à sua época, convidava os bispos a não darem espaço à divulgação oficial desses escritos em suas dioceses. (Nós, da VVD, facilitamos as coisas: esses esclarecimentos constam hoje no primeiro e no último volume da série, o XII).

8. Com relação à validade da Notificação de 1995, a carta do Cardeal Levada mais confunde que esclarece - o que exigirá, portanto, um esforço especial de compreensão e de interpretação. Eis o que ela afirma: "A Notificação de 1995 continua válida como julgamento doutrinal sobre os escritos examinados."

8.1. A primeira e descuidada interpretação é a de que a Notificação permaneceria válida porque, do ponto de vista doutrinal, os escritos de VR conteriam "erros". Quase todos embarcaram nessa interpretação e, com especial açodamento e "alegria", os adversários das Mensagens (as quais, como Jesus, se converteram em "sinal de contradição"). Mas é uma interpretação inadmissível pelos seguintes motivos:vassula&papabento16

a) Contraria frontalmente a citada carta do Cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI, e com quem trabalhou o Cardeal Levada, a qual atesta terem sido esclarecidas as dúvidas doutrinais que a CDF apresentou a Vassula.

b) Nesse caso, a carta atual faria "tábua rasa" de todo o processo de "minucioso diálogo" entre Vassula e a CDF, como se nada tivesse acontecido durante esse longo processo, e sem levar em consideração o trabalho anterior da própria Congregação, que seria destruído numa simples penada.

c) Mais importante que tudo, essa interpretação faria da própria carta do Cardeal Levada uma peça autocontraditória, uma vez que nos parágrafos seguintes ela menciona os esclarecimentos prestados por Vassula, à cuja luz os Bispos podem autorizar a difusão das Mensagens. Essa autorização seria incompreensível se elas, de fato, contivessem "erros" não esclarecidos!

8.2. Alguns pensaram, então, que a Notificação permaneceria válida na parte que avalia as Mensagens como "meditações pessoais" e não como revelações do Senhor. Contra essa interpretação, porém, está a clara afirmação de que ela é válida "como julgamento doutrinário" dos escritos examinados.

8.3. Por eliminação, chegamos, assim, à única interpretação plausível, dentro do contexto todo das relações de Vassula com a CDF, conforme mostramos, e única maneira de não fazer dessa carta uma peça contraditória, que se anula a si mesma: trata-se da interpretação de que a Notificação teve validade, no seu momento, como advertência sobre pontos doutrinais duvidosos - a juízo da Congregação - e que, como tal, continua válida para aqueles que desconhecem as explicações dadas por Vassula Rydén.

8.4. Esclarecido esse ponto, chegamos à conclusão da carta, que declara: "continua sendo inoportuna (segundo a versão oficial francesa; a inglesa e a espanhola falam em "não apropriada") a participação de católicos nos grupos de oração organizados pela Sra. Rydén (a versão oficial espanhola precisa: pela própria - 'misma' - Sra. Rydén).

Observemos que, além de uma restrição, sugerida com o adjetivo "inoportuna", em relação à carta anteriormente citada do Cardeal Ratzinger, que deixava o caso, simplesmente, por conta da decisão dos Ordinários locais, os leitores e divulgadores apressados mais uma vez trocaram os pés pelas mãos, julgando que o Cardeal Levada desaconselhava a participação de católicos nos grupos comuns da VVD (aliás, aqui no Brasil, desconheço a existência de grupos propriamente ecumênicos da VVD). Por que tal interpretação é errônea?

a) A carta esclarece que se trata dos grupos organizados pela própria Vassula, a saber, aqueles que mencionamos acima, na alínea "b" do item nº 5);

b) A participação de católicos especificamente nesses agrupamentos ecumênicos já tinha sido deixada a cargo da decisão dos Bispos diocesanos pela carta do Cardeal Ratzinger.

c) A carta do Cardeal Levada, ao sugerir a "inoportunidade" de participação dos fiéis menciona expressamente, a título de explicação: "Em relação aos encontros ecumênicos os fiéis devem ater-se às normas do Diretório Ecumênico, do Código de Direito Canônico e dos Ordinários diocesanos" (portanto, mesmo nesses grupos ecumênicos os católicos podem participar, desde que atendidas essas normas ou condições).

d) Interpretar que seria desaconselhável a participação de católicos em grupos comuns de oração (para invocar o Espírito Santo, consagrar-nos aos Dois Corações de Jesus e Maria, rezar o Rosário, meditar a Palavra de Deus, ler uma Mensagem da VVD, rezar pela conversão do mundo e pelas necessidades da Igreja e dos fiéis, como fazemos) seria abusivo, pois iria contrariar as normas do Código de Direito Canônico que asseguram o direito de associação e de reunião (Câns. 215, 223,298...).

(Caberia perguntar: e por que D. Levada ainda julga inoportuna a participação dos católicos nas reuniões ecumênicas - a não ser quando obedecidas as normas citadas? Presumo que a Congregação deseja manter certo controle sobre atividades ecumênicas, pelo menos no que diz respeito aos católicos).

9. Até aqui procurei a interpretação correta e contextualizada da carta do atual Prefeito da CDF. Para uma avaliação crítica da mesma, remeto os leitores para o artigo Vassula x Roma. Mas não posso terminar sem antes apontar uma afirmação falsa e três erros factuais contidos na referida carta, que acabam, infelizmente, por permitir questionamentos a essas orientações.

9.1. Erros factuais

a) A carta afirma que Vassula "ofereceu esclarecimentos sobre alguns pontos problemáticos de seus escritos." A verdade é que ela ofereceu esclarecimentos sobre todas as questões levantadas pela CDF. E ainda por cima ela escreveu, na carta em que pôs termo a essas dúvidas: "(Agradeço-lhes) o terem-me concedido esta ocasião de explicar a minha obra." Em seguida, colocou-se à disposição para "responder, de forma oral ou escrita, a todas as demais questões ou problemas que possam apresentar. "Ora, a Congregação não apresentou nenhuma outra dúvida adicional. Pelo contrário, o Pe. Próspero Grech, OSA, perito da CDF que intermediou os contactos com Vassula, escreveu recentemente a ela, depois da carta do Cardeal Levada: "Eu pensei que a questão estava encerrada e que não viria à tona de novo" (I thought the matter was closed and would not turn up again).

b) A carta afirma que as explicações de Vassula foram publicadas no X volume da VVD. Errado: foram publicadas no XII e último volume e, posteriormente, no I volume. Parece um simples detalhe, mas poderia desencaminhar algum eventual interessado em conhecer essas explicações, o qual, não as encontrando no volume indicado, ainda poderia desconfiar que Vassula estaria burlando a CDF ...

c) O Cardeal Levada diz que a carta esclarecedora de Vassula foi escrita no dia 4/4/2002. Outro erro, pois a data correta é 26/6/2002.

9.2. Uma afirmativa falsa!

O pior de tudo, porém, é a seguinte afirmativa falsa, que induz ao erro sobre um ponto capital das Mensagens: "A Sra. Vassula Rydén, entretanto, depois do diálogo com a Congregação para a Doutrina da Fé, ofereceu esclarecimentos sobre alguns pontos problemáticos de seus escritos e sobre a natureza de suas mensagens, que se apresentam não como revelações divinas, mas antes como meditações pessoais. "Se não entendemos mal, o Cardeal atribui a Vassula o que, talvez, seja a opinião dele.

Ora, respeitamos nossas autoridades legítimas e procuramos obedecer a suas orientações que não venham a colidir com uma norma superior - do Magistério, do Código de Direito Canônico, etc. - ou com a verdade; mas como os filhos da Luz podem compactuar com o erro e o engano? Vamos "fazer ginásticas" para desculpar os citados erros, alegando que o Cardeal Levada é novato no cargo, talvez não tenha tido tempo de se informar dos detalhes, etc.? Mas o diálogo foi travado entre o Dicastério dele e Vassula; é fato recente; todos os documentos estão ali arquivados: era só consultar, ou se informar, por exemplo, com o Cardeal Bertone, com o Pe Próspero Grech ou com o próprio Papa.... Como não pensar numa certa leviandade e pouco caso no trato de questões tão sérias?

Se o leitor pensa que estamos sendo severos, que julgue por si mesmo, com relação a essa afirmação falsa. Apresentamos, a título de exemplo, algumas expressões da carta de Vassula à CDF, tantas vezes citada (a numeração das páginas corresponde às da tradução portuguesa, publicada pela Associação AVVD do Brasil e enviada a todos os nossos Bispos).

Depois de reconhecer a distinção entre “revelações privadas” e a “Revelação pública” (que ela escreve respectivamente com minúscula e maiúscula), Vassula passa a esclarecer como recebe essas revelações:

“As palavras ou instruções divinas dadas para Me instruir não são dadas como um ensinamento escolar” [...] “as palavras ou instruções divinas são dadas num tal intervalo de tempo e gravadas no espírito de forma tal que se torna difícil esquecê-las. ” (pág. 16).

“O segundo modo por meio do qual recebo as palavras de Deus é como uma luz de compreensão em meu intelecto, sem emissão de fala. É como se Deus transmitisse o Seu Pensamento ao meu” (pág. 16).

“Por que o Senhor escolheu essa forma especial de escrever as Mensagens...” (pág. 16)

“Como diz o Senhor numa de suas mensagens...” (pág. 17).

“O Sr. me pergunta: ‘Por que a Sra empreende essa missão?’ – a minha resposta é: porque fui chamada por Deus, conforme acreditei, e correspondi...” (pág. 17).

“Eis uma passagem em que a Virgem Maria fala...” (pág. 19).

“Na mesma Mensagem, Jesus fala da verdade: ‘Defende a Verdade até a morte; de vez em quando tu serás criticada estupidamente, mas Eu Mesmo é que o permitirei...” (pág. 19).

“Jesus não fala, nas Mensagens, da validade dos seus sacramentos, mas pressiona os protestantes a amar de novo a Mãe de Jesus e a reconhecer o papel de Pedro...” (pág. 25).

“Numa outra mensagem, Cristo repreende os cristãos que não conseguem ver a grandeza do Mistério da Eucaristia...” (pág. 25).

“Numa das passagens dos escritos da VVD, Cristo diz...” (pág. 29).

Basta! Que o leitor responda: Vassula apresenta seus escritos como simples “meditações pessoais” ou como revelações da parte de Deus, Jesus e mesmo Nossa Senhora? Repito: a carta está lá, nos arquivos... Custava consultá-la? Parece que o Cardeal não a leu!

Por essas e outras é que Vassula, em correspondência a propósito desse confuso e sinuoso documento que estamos analisando, tem toda a razão em interpelar a Congregação: que o “seu ‘sim’ seja ‘sim’, e o seu ‘não’ seja ‘não’” (E tudo o que vai além disso vem do Maligno, afirma Jesus no Evangelho). O diálogo demorado e minucioso entre ela e a Congregação não pode ter sido uma brincadeira de faz de conta. Ele valeu ou não? O Cardel Ratzinger, hoje Papa; o Cardeal Bertone e o Pe Próspero Grech afirmaram e afirmam que valeu. E o Cardeal Levada?

(José Hipólito de Moura Faria - JHMF)

 

 

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